Sempre que um sacerdote abandona o ministério, surgem especialistas na análise do fenómeno. é possível que eu seja apenas mais um. Durante muitos anos, quase todos assumiam que a razão seria o desejo de casar. É verdade que essa continua a ser uma realidade em alguns casos, mas já não explica a maioria das situações. Hoje, escutam-se outras palavras: falta de liberdade, desgaste, sufoco, excesso de burocracia, incompreensão, dificuldades no relacionamento com os superiores ou simplesmente a sensação de que já não é possível viver o ministério com alegria.
Longe de mim o querer escrever estas linhas para julgar quem tomou essa decisão. Só Deus conhece a história de cada pessoa e há sofrimentos profundos que ninguém vê e circunstâncias que não podem ser reduzidas a uma explicação simplista. Mas estes acontecimentos levam-me inevitavelmente a uma pergunta que também me dirijo a mim próprio: afinal, o que significa ser padre? E, mais profundamente ainda, o que significa amar a Igreja?
Cada vez mais a nossa cultura identifica a liberdade com a ausência de limites. Ser livre significa fazer aquilo que se deseja, seguir o próprio caminho, não depender de ninguém, não prestar contas. É uma ideia tão repetida que quase deixou de ser discutida. Mas o Evangelho apresenta uma compreensão muito diferente. Cristo foi o homem mais livre que alguma vez existiu. E foi precisamente essa liberdade que O levou até à cruz. Por outras palavras, com Cristo aprendemos que a única liberdade não passa por fazer o mais cómodo, mas por fazer apenas a vontade do Pai.
Sempre ouvi dizer que o sacerdote não perde a liberdade quando é ordenado, antes dispõe livremente da sua liberdade para que Deus faça dela aquilo que entender. A obediência não é a perda da liberdade, é a sua oferta. Quem ama entrega, confia e abandona-se. Quem acredita aceita que Deus possa conduzir a sua vida por caminhos que nunca teria escolhido.
É aqui que entra a Igreja. Muitos parecem amar uma determinada ideia de Igreja: uns desejam uma Igreja mais moderna, outros sonham com uma Igreja mais tradicional; uns gostariam que mudasse quase tudo, outros desejariam que nada mudasse. Para todos estes (para todos nós) o risco é o mesmo: construir uma Igreja à nossa imagem. Mas a Igreja não é nossa. Se acreditamos no Credo quando professamos que a Igreja é una, santa, católica e apostólica, então acreditamos que ela é muito mais do que uma instituição humana. Ela é o Corpo do próprio Cristo, Sacramento de salvação e o lugar onde o Espírito Santo continua a agir através de homens frágeis.
Significará, isto, fechar os olhos aos pecados dos seus membros? Claro que não! A história da Igreja conhece momentos sombrios: abusos, corrupções, mediocridades e escândalos.... Nunca foi uma comunidade de perfeitos. Mesmo assim, os maiores santos nunca responderam a essas crises afastando-se da Igreja.
Penso frequentemente em São Francisco de Assis, que sempre tenho tomado como exemplo daquele "é possível". Francisco encontrou uma Igreja profundamente marcada pelas fragilidades humanas e podia ter concluído que a solução seria criar um caminho paralelo ou romper com a autoridade eclesial. Não fez nem uma coisa nem outra. Reformou a Igreja começando por se deixar reformar a si próprio, obedeceu quando era difícil e humilhou-se quando poderia ter reivindicado protagonismo. Amou a Igreja concreta, com as suas feridas, porque nela reconhecia a presença de Cristo. Não tenho dúvidas que a postura de Francisco diante de uma Igreja tão marcada pelos escândalos medievais é um modelo do tal "Creio na Igreja".
Hoje fala-se muito de reforma, mas fala-se muito pouco de conversão. É mais fácil querer mudar a Igreja do que permitir que a Igreja nos mude a nós. É mais simples identificar os defeitos das estruturas do que reconhecer os limites do próprio coração. No entanto, todas as grandes reformas da história nasceram de homens e mulheres que começaram por se ajoelhar, não por protestar. Também por isso olho com alguma preocupação para uma ideia que vai ganhando espaço: a de que a fidelidade depende de a Igreja corresponder às nossas expectativas: se concordo, permaneço; se discordo, afasto-me; se a decisão coincide com aquilo que penso, obedeço; se não coincide, sinto-me legitimado para seguir outro caminho. Vemos isto em larga escala, tanto em alguns grupos eclesiais como, a título pessoal, entre sacerdotes e fiéis. Sem cair em exageros ou generalizações, é difícil não reconhecer uma crescente rebeldia eclesial, acompanhada por uma profunda incoerência pastoral.
Mas será esse o modo cristão de viver? Todos sabemos que a obediência nunca foi confortável., mas também não é cega. A Igreja não pede que renunciemos à inteligência nem que deixemos de pensar, mas pede-nos algo muito mais exigente: que confiemos que o Espírito Santo continua a agir mesmo através de mediações humanas imperfeitas. A Igreja pede-nos um ato de fé, apenas isto.
Enquanto se noticia cada sacerdote que abandona o ministério, quase nunca se fala dos milhares que permanecem, dos que permanecem sem fazer manchetes. Dos que permanecem apesar do cansaço, da solidão, das incompreensões, das limitações pessoais e institucionais. Permanecem porque descobriram que a sua vocação não assenta na ausência de dificuldades, mas na fidelidade aqu'Ele que os chamou.
Disto tudo concluo que o futuro da Igreja não dependerá apenas de reformas, de estruturas mais eficientes ou de novas estratégias pastorais, mas mais de cristãos, religiosos, sacerdotes e bispos que voltem a apaixonar-se pela Igreja de Cristo, não porque ela seja perfeita, mas porque é nela que Cristo continua a encontrar o homem. A Igreja nunca precisou de discípulos que a amassem apenas quando concordavam com ela, mas sempre precisou de filhos que permanecessem junto dela, mesmo quando isso exigia humildade, paciência e obediência.
Por isso, será que amo verdadeiramente a Igreja de Cristo ou apenas a Igreja que eu imaginaria construir?