Que significa isto? Será apenas um convite à coragem? O Evangelho do domingo passado (Mt 10, 26-33) mostrou que não. Jesus não elimina todos os medos mas, pelo contrário, distingue-os.
«Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.»
Confesso que compreendo quem estranhe esta linguagem. A palavra “temor” soa mal aos nossos ouvidos. Preferimos falar de proximidade, de amizade, de confiança. E ainda bem, já que nos esforçamos por acreditar num Deus que é Pai, que nos ama e que nos procura sem descanso. Mas precisamente porque é Pai e nos ama é que não deixa de ser Deus.
Viver o temor de Deus (um dos dons do Espírito Santo) nunca foi sinónimo de viver em pânico ou em terror. Trata-se do respeito de quem reconhece que está diante d’Aquele que é infinitamente maior do que nós. É a atitude humilde de quem sabe que não é o centro do universo.
Parece-me, porém, que fomos perdendo este sentido. Deixámos de olhar para Deus como Senhor e começámos a tratá-Lo quase como um igual (quase uma 'camarada porreiro para todas as horas'. Já não nos interrogamos seriamente sobre a sua vontade, nem trememos diante da possibilidade de O ofender. As nossas escolhas parecem ter deixado de ter qualquer peso diante da eternidade.
Ora, quando desaparece o temor de Deus, não desaparece o medo. Se desaparecesse, ainda se podia dizer que tínhamos ganho alguma coisa. Mas não. O medo continua lá. Apenas muda de destinatário.
Quem deixa de temer Deus acaba, mais cedo ou mais tarde, por temer os homens.
Começa a preocupar-se excessivamente com a opinião dos outros, a temer ser ridicularizado por professar a fé, a teme perder estatuto, seguidores, influência ou prestígio. Teme dizer a verdade quando ela se torna incómoda para o ambiente em que vive. Teme ficar sozinho. É curioso. Nunca tivemos tantas condições de segurança material e, ao mesmo tempo, parece que nunca vivemos tão dominados pela ansiedade e pela necessidade de aprovação.
O Evangelho propõe exatamente o caminho contrário. É como se Jesus dissesse: coloca Deus verdadeiramente no primeiro lugar e todos os outros poderes recuperarão a sua justa medida. Foi precisamente esta ideia que me levou, no último fim de semana, a pensar em duas palavras que hoje quase escandalizam: “superior” e “inferior”. Parece que já ninguém as aceita, porque supostamente somos todos iguais. Como se reconhecer que alguém está acima de mim numa determinada ordem significasse que vale mais do que eu. Mas nunca foi isso que o Cristianismo ensinou.
A fé cristã afirma que todos possuímos exatamente a mesma dignidade, porque todos fomos criados à imagem de Deus e todos fomos redimidos por Cristo. Contudo, não temos todos a mesma missão: há pais e filhos; há mestres e discípulos; há governantes e cidadãos; há pastores e fiéis; etc... O 4º. Mandamento manda honrar «pai e mãe e os legítimos superiores», não porque tenham mais dignidade, mas porque receberam uma autoridade que lhes foi confiada para o serviço do bem comum. É por isso que a verdadeira autoridade nunca torna ninguém maior, mas torna-o mais responsável.
Jesus mostrou-o da forma mais bela na Última Ceia, quando lavou os pés aos discípulos. Quem recebeu mais autoridade deve servir ainda mais. Daqui resulta uma conclusão simples: quem exerce a autoridade como domínio trai o Evangelho; quem recusa toda a autoridade legítima também se afasta da ordem querida por Deus.
No fundo, parece-me que a vida cristã passa também por reconhecer o lugar de cada um: Deus acima de todos; os outros ao nosso lado, com a dignidade que lhes pertence; e nós diante de Deus, conscientes de que somos criaturas infinitamente amadas, mas não somos o centro do universo.
Para terminar, é significativo que, logo depois de falar do temor de Deus, Jesus fale dos passarinhos e dos cabelos da nossa cabeça. É como se dissesse: aqu'Ele que deves colocar acima de tudo é precisamente aqu'Ele que conhece cada cabelo da tua cabeça e não deixa cair um único passarinho sem o consentimento do Pai. Só quem reconhece verdadeiramente a grandeza de Deus consegue descobrir, ao mesmo tempo, a imensidão do seu amor.