Sempre que se aproximam eleições presidenciais, regressa a mesma tentação. Uns esperam que a Igreja indique caminhos concretos, quase como um boletim de voto comentado. Outros exigem um silêncio absoluto, como se a fé tivesse de ser suspensa à porta da cidadania. Nenhuma destas posições é saudável. A Igreja não vota, mas forma consciências. E uma consciência formada não precisa de ordens, precisa de critérios.
O Presidente da República não governa o dia a dia do país. Não faz leis nem define políticas económicas. Mas também não é uma figura decorativa. A Constituição confia-lhe funções decisivas: garante o regular funcionamento das instituições, representa o Estado, promulga ou veta leis, dissolve o parlamento em situações extremas e, sobretudo, exerce uma magistratura moral. Um Presidente não resolve tudo, mas pode agravar ou atenuar conflitos, pacificar ou incendiar, proteger a democracia ou corroê-la por dentro. Ignorar este peso é votar mal informado.
Por isso, a questão central não é apenas quem promete mais, mas quem está em condições de exercer este papel com equilíbrio, sentido institucional e respeito pelo pluralismo. Um Presidente deve saber falar a todo o país, não apenas à sua base eleitoral. Deve unir sem uniformizar e corrigir sem humilhar. Quando isso falha, o dano não é imediato, mas é profundo.
Neste contexto, importa também reconhecer os perigos que atravessam os extremos ideológicos. O socialismo, quando absolutiza o Estado, corre o risco de sufocar a iniciativa, diluir responsabilidades e criar dependências que ferem a dignidade pessoal. A história mostra que, quando tudo é entregue ao aparelho estatal, os mais frágeis acabam por ser instrumentalizados e a liberdade transforma-se numa concessão revogável.
Mas a extrema direita não é uma simples reação a esses excessos. Ela transporta perigos próprios e bem conhecidos. Alimenta-se do medo, simplifica problemas complexos, transforma adversários em inimigos e normaliza a exclusão em nome da ordem. Onde cresce, cresce também a desconfiança, o desprezo pelas instituições e a tentação de resolver pela força o que exige diálogo. A experiência histórica ensina que este caminho raramente termina bem, sobretudo para os mais vulneráveis.
Um cristão não pode olhar para estas realidades com ingenuidade. A Doutrina Social da Igreja não oferece receitas partidárias, mas critérios exigentes. O primeiro é a dignidade da pessoa humana. Nenhuma proposta política que despreze pessoas, que relativize direitos fundamentais ou que trate grupos como descartáveis pode ser compatível com o Evangelho. O segundo é o bem comum, que não se confunde com a soma de interesses individuais nem com a vitória de um grupo sobre outro. O terceiro é a subsidiariedade, que rejeita tanto o Estado omnipresente como o abandono dos mais frágeis à lógica do mercado ou da força. E o quarto é a solidariedade, que impede a indiferença e recusa soluções baseadas no ressentimento.
Votar, para um cristão, não é um gesto ideológico, é um ato moral. Não basta perguntar quem fala melhor ou quem promete mais. É preciso perguntar quem respeita as instituições, quem aceita limites, quem demonstra capacidade de escuta, quem revela coerência entre palavras e atitudes. O cargo presidencial exige maturidade, não discursos inflamados; prudência, não improviso; sentido histórico, não impulsos momentâneos.
Há também um critério frequentemente esquecido: o efeito pedagógico. Um Presidente educa, mesmo quando não quer. Educa pelo tom, pela linguagem, pelo modo como lida com a diferença e com o conflito. Um discurso agressivo banaliza a agressividade. Um discurso simplista empobrece o debate público. Um discurso responsável eleva a exigência cívica. Aqui, o cristão deve perguntar-se que tipo de país está a ajudar a formar.
A Igreja não substitui a consciência dos fiéis, mas lembra que a fé não se vive em compartimentos. Não se pode rezar o Pai-Nosso e votar como se o outro fosse um problema a eliminar. Não se pode proclamar a dignidade humana no templo e relativizá-la na praça pública. A coerência não é perfeição, é honestidade.
Por isso, mais do que slogans ou medos, estas eleições pedem discernimento. Discernir é mais difícil do que reagir. Obriga a escutar, a comparar, a resistir à pressão dos extremos e à sedução das respostas fáceis. Mas é esse o caminho cristão. Não o da neutralidade vazia, mas o da responsabilidade madura.
A democracia não se sustenta apenas em leis, sustenta-se em virtudes cívicas. E essas virtudes começam na consciência de cada um. A Igreja não diz em quem votar. Mas lembra que não é indiferente como se vota. O futuro constrói-se também nos gestos silenciosos de lucidez. E esse é um dever que ninguém pode delegar.
Desejo um bom discernimento, porque não é tão fácil como parece… Há prós-contras em qualquer opção.