Há uma forma de indignação política que já não procura defender a dignidade humana, mas apenas confirmar a própria ideologia. É uma indignação que vê com clareza absoluta os crimes de uns, mas torna-se estranhamente muda diante dos crimes de outros. É por isso que me causa perplexidade ouvir certos setores políticos exigirem que Portugal corte relações com Israel, apresentado como “Estado genocida”, enquanto mantêm um silêncio quase absoluto sobre regimes onde a repressão, a tortura, a perseguição religiosa, a violência contra mulheres, a censura e a eliminação da oposição são práticas estruturais.
Não é minha intenção branquear a situação em Gaza. A guerra provocou uma catástrofe humana enorme. Aliás, a Amnistia International acusou Israel de crimes gravíssimos, incluindo genocídio, e o Tribunal Internacional de Justiça mantém em curso o processo movido pela África do Sul contra Israel ao abrigo da Convenção sobre o Genocídio. O Tribunal Penal Internacional emitiu também mandados de detenção, em novembro de 2024, contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant, bem como contra uma liderança do Hamas.
Mas precisamente por isso que levanto a pergunta: se o critério é a defesa da dignidade humana, porque é que a indignação não é universal? A Coreia do Norte continua a ser um dos regimes mais fechados e repressivos do mundo. A Eritreia é descrita como um verdadeiro “deserto de informação”, ocupando o último lugar no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de 2025. O Afeganistão talibã transformou a vida das mulheres numa prisão social e legal. O Irão continua marcado por execuções em massa e repressão política. A Arábia Saudita restringe quase todos os direitos políticos e liberdades civis. O Sudão vive uma das maiores crises humanitárias e de deslocados do planeta. Myanmar permanece sob violência militar e repressão brutal.
Então, o problema não é condenar Israel. O problema é condenar apenas Israel, porque os direitos humanos não podem ser invocados seletivamente, porque quando assim é deixam de ser direitos humanos e passam a ser munição política ou ideológica. A Human Rights Watch advertia já que os governos e os movimentos que denunciam crimes israelitas, mas se calam diante de crimes chineses, russos ou de outros regimes, enfraquecem a própria ideia de universalidade dos direitos humanos. É o que está a acontecer.
Do ponto de vista da Doutrina Social da Igreja (DSI), esta seletividade é moralmente inaceitável. A dignidade da pessoa humana não depende da geografia, da religião, da etnia, da utilidade política da vítima ou da simpatia ideológica pelo agressor. A Gaudium et spes recordou que a igual dignidade de todas as pessoas exige condições de vida mais humanas e justas, e que as instituições devem combater TODA a forma de escravidão social ou política..
Também a Pacem in terris colocou a paz sobre quatro pilares: verdade, justiça, caridade e liberdade. Ora, não há verdade quando se escolhem apenas alguns sofrimentos. Não há justiça quando se denunciam certos opressores e se desculpam outros. Não há caridade quando a vítima só nos comove se for útil à nossa causa. E não há liberdade quando a defesa dos direitos humanos se torna refém de blocos ideológicos.
Mais recentemente, a Fratelli tutti propõs uma fraternidade sem fronteiras seletivas: reconhecer, apreciar e amar cada pessoa, independentemente de onde nasceu ou vive. Uma visão que torna impossível uma política de compaixão parcial. O cristão não pode ter mortos preferidos, refugiados preferidos, presos políticos preferidos ou povos oprimidos preferidos. Por isso, Portugal deve ter uma política externa exigente, coerente e fundada no direito internacional. Deve condenar os crimes cometidos por Israel quando os há. Deve exigir a libertação dos reféns. Deve defender os civis palestinianos. Deve apoiar a investigação internacional independente. Mas deve fazer o mesmo diante da Coreia do Norte, do Irão, da Eritreia, do Afeganistão, da Arábia Saudita, de Myanmar, da Síria, do Sudão, da Rússia, da China ou de qualquer outro Estado que esmague a dignidade humana. Esta coerência é exigente porque obriga-nos a sair da trincheira. Obriga-nos a reconhecer que há vítimas que não rendem eleitoralmente, que não aparecem nas manifestações, que não cabem nos cartazes, que não servem a narrativa dominante. Mas essas vítimas existem. E a sua dor não vale menos.
A DSI ajuda-nos a purificar o olhar: a causa não é a esquerda, nem a direita, nem o Ocidente, nem o anti-Ocidente. A causa é a pessoa humana. Ao perdermos essa centralidade, até a defesa dos direitos humanos pode transformar-se numa forma sofisticada de propaganda.