Nas últimas semanas voltaram a surgir declarações que, à primeira vista, parecem pastorais, abertas e até evangélicas: um bispo que afirma que o direito canónico não pode impedir aquilo que vem do Espírito Santo e um sacerdote que confessa esperar ainda ver a ordenação sacerdotal de mulheres. A linguagem é sugestiva. Mas precisamente por isso exige discernimento sério. Porque nem tudo o que soa a renovação é, de facto, fidelidade. A questão não é nova. E, sobretudo, não está em aberto.
Em 1994, a “Ordinatio Sacerdotalis” de São João Paulo II formulou de modo definitivo aquilo que pertence à constituição da Igreja:
Importa compreender o alcance desta formulação. Não se trata de uma decisão administrativa da Igreja que poderia, com o tempo, ser alterada. Trata-se de um reconhecimento de limite: a Igreja não se considera autorizada a agir de outro modo. Não é uma questão de poder mas uma questão de fidelidade. E a fundamentação apresentada não é sociológica, mas teológica. Vejamos!
Cristo escolheu os Doze entre homens e fê-lo livremente, contra várias convenções culturais do seu tempo. A sua relação com as mulheres foi profundamente inovadora, mas essa inovação não se traduziu na inclusão de mulheres no colégio apostólico. A Igreja, desde o início, reconheceu neste facto não um acaso histórico, mas uma decisão com valor normativo. A prática constante, tanto no Ocidente como no Oriente, confirma esta leitura. E o Magistério, ao longo dos séculos, não fez mais do que explicitar aquilo que sempre viveu. Além disso, há uma dimensão sacramental que não pode ser ignorada. O sacerdote age in persona Christi, Cristo Esposo. A relação entre Cristo e a Igreja não é neutra mas é esponsal. O sinal sacramental não é arbitrário. A diferença sexual não é um detalhe biológico, mas parte integrante da linguagem simbólica através da qual Deus se revela e salva. Alterar esse sinal não seria um desenvolvimento legítimo, mas uma rutura. É aqui que entra uma confusão típica do nosso tempo: a leitura da realidade eclesial a partir da categoria de “igualdade de género”.
A Igreja afirma, sem ambiguidade, a igual dignidade entre homem e mulher. Mas igualdade não significa identidade funcional. A lógica cristã é a da igualdade na diferença. Deus não distribui os seus dons segundo critérios de uniformidade, mas segundo uma sabedoria que integra a diferença. Há um exemplo simples que ajuda a clarificar: a capacidade de gerar vida biologicamente foi confiada à mulher. Não é uma injustiça para o homem. Não é uma desigualdade a corrigir. É uma diferença que revela um modo próprio de participação na obra criadora de Deus. Ninguém reivindica “direito” à gestação. Aceita-se como dom. Curiosamente, quando chegamos ao sacerdócio, a lógica inverte-se: aquilo que é dom passa a ser reivindicado como direito e isso revela uma mudança profunda de mentalidade: o ministério ordenado deixa de ser compreendido como graça e passa a ser lido como função, estatuto ou espaço de poder.
Mas o sacerdócio não é um direito, nem mesmo para os homens. Ninguém pode exigir ser ordenado, nem sequer quem sente vocação. A Igreja discerne, confirma ou não confirma esse chamamento. O próprio candidato reconhece que recebe algo que não lhe pertence. Falar de “direito das mulheres ao sacerdócio” é, portanto, um erro de base, pois quem usa essa linguagem mostra não ter compreendido a natureza do ministério ordenado.
Neste contexto, torna-se necessário também esclarecer outra ideia recorrente: a de que dar acesso ao sacerdócio seria reconhecer o valor das mulheres na Igreja. A realidade concreta desmente esta narrativa, pois as mulheres já sustentam, em grande parte, a vida das comunidades cristãs. Elas são a maioria esmagadora na prática sacramental, na catequese, na ação social, na vida litúrgica. Em muitos contextos, elas são o verdadeiro tecido vivo da Igreja. Falar de “dar mais espaço às mulheres” sem reconhecer este facto revela uma análise superficial na realidade eclesial. Mais ainda: corre-se o risco de reduzir o valor da mulher à sua presença em estruturas de governo ou ministérios ordenados, como se a dignidade dependesse de funções visíveis. Por isso, a questão que se impõe é outra: estamos a falar de serviço ou de poder? Quando a linguagem se torna reivindicativa, quando se fala em “acesso”, “direitos”, “exclusão”, há um deslizamento claro para categorias políticas. Mas a Igreja não é uma democracia funcional onde os cargos se distribuem por critérios de representatividade. É um corpo orgânico, onde cada membro tem uma missão própria. Insistir na ordenação de mulheres como sinal de progresso pode, paradoxalmente, revelar uma incompreensão da própria identidade da Igreja. E mais: pode obscurecer aquilo que verdadeiramente precisa de atenção hoje.
Num tempo em que tantos homens se afastaram da prática cristã, em que a presença masculina nas comunidades é cada vez mais residual, a prioridade pastoral dificilmente passa por reconfigurar o sacerdócio. A crise é outra, e mais profunda. Por isso, talvez o verdadeiro caminho não esteja em adaptar a Igreja às categorias do mundo, mas em redescobrir a lógica própria do Evangelho, uma lógica onde a grandeza não está no poder, mas na santidade, onde a vocação não é reivindicada, mas acolhida e onde a diferença não é ameaça, mas riqueza. A Igreja precisa, sim, de reconhecer, valorizar e integrar ainda mais o contributo das mulheres, mas isso não se faz imitando modelos externos nem forçando aquilo que não lhe foi dado fazer. Há limites que não são obstáculos ao Espírito Santo. São precisamente o lugar onde se reconhece que a Igreja não é dona de si mesma.