22/10/25

Testemunho e narrativa… não é o mesmo

Nos últimos dias, as declarações de Mariana Mortágua e de outros portugueses que integraram a flotilha para Gaza geraram forte comoção mediática. As descrições de maus-tratos durante a detenção em Israel (fome, privação de água, celas sobrelotadas, coação psicológica) foram recebidas com indignação por muitos e com ceticismo por outros.

É precisamente nesse cruzamento que vale a pena fazer uma pausa. Nem toda denúncia é falsa, nem todo testemunho é neutro. A prudência não é frieza moral, é simplesmente a condição de quem quer compreender antes de reagir.

Mariana Mortágua é, há muito, uma figura política com posição assumidamente crítica em relação ao Estado de Israel. Isso não a desqualifica, mas é um dado relevante: uma testemunha politicamente comprometida fala sempre a partir de um enquadramento ideológico. O que torna qualquer depoimento vulnerável não é a intenção (que pode ser sincera) mas a ausência de provas independentes que sustentem as afirmações.

Até ao momento, não existem relatórios médicos, imagens verificadas ou documentos forenses que confirmem as alegações de maus-tratos. Há, sim, relatos consistentes entre vários ativistas e declarações diplomáticas que reconhecem “condições difíceis”, mas não violência física. Isso coloca o caso numa zona cinzenta, onde a verdade pode estar repartida entre excessos de ambos os lados, ou simplesmente em diferentes perceções do que é “tratamento abusivo”.

Num tempo em que a emoção se propaga mais depressa do que a verificação, convém recordar um princípio básico: quanto mais forte a acusação, maior deve ser a prova. A causa palestiniana merece ser defendida com rigor, não apenas com indignação. E a credibilidade das denúncias depende tanto da honestidade de quem as faz como da robustez das evidências que as acompanham.

Talvez a maior lição deste episódio não esteja na culpa de uns ou na inocência de outros, mas na urgência de reaprender a distinguir testemunho de narrativa (e a exigir sempre que o primeiro se apoie no segundo apenas quando há verdade comprovável a sustentar a emoção).