O Dia de Portugal deveria ser, acima de tudo, um momento para celebrar a portugalidade, essa pertença feita de história, cultura, fé, trabalho e um povo. Um dia para recordar o que nos une, não para nos perdermos em julgamentos unilaterais da História e insistirmos em divisões.
Nos discursos deste ano (tanto de Lídia Jorge como do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa) pareceu haver uma insistência em revisitar a nossa história com um olhar moralista e, por vezes, redutor. Colonialismo, escravatura, extremismos, fluxos migratórios (forçados ou não)… todos temas reais e merecedores de estudo e memória. Mas Portugal é mais do que isso. A nossa identidade não se resume aos capítulos sombrios, nem pode ser contada apenas a partir da lente das culpas sobre o passado.
Assisti a uma espécie de narrativa com guião pré-escolhido, onde se invocam apenas os elementos que servem uma agenda ideológica do tempo presente. E ficamos com uma ideia turva e até desencantada do que é, afinal, ser português. Onde estão as pontes, os feitos, os santos, os poetas (para além de Camões amplamente referido), os missionários, os descobridores, os operários, os agricultores, os que amaram esta terra de Santa Maria com o coração inteiro?
Pergunto-me ainda: quem decide que “estamos no fim de um ciclo”? Talvez cada tempo tenha a tentação de pensar que o seu momento é o derradeiro. Mas talvez estejamos, antes, no início de um novo ciclo com a responsabilidade de o construir com raízes fundas e visão alargada.
Celebrar Portugal não é esconder o que dói, mas também não é amputar a alma de um povo. Precisamos de reencontrar a coragem de dizer que temos uma história rica, feita de luzes e sombras, como todas as histórias humanas, mas que não merece ser reescrita ao sabor do vento ideológico.
Não se pode celebrar o dia 10 de junho com um destaque tão desproporcional às “sombras” da nossa História. Portugal precisa também das luzes, das referências, dos modelos, das conquistas… enfim… precisa de positividade, algo que faltou no 10 de junho.
Portugal não precisa de discursos longos. Precisa de alma.