Não cresci num ambiente de catequese ou missas dominicais. Na verdade, passei boa parte da minha infância e adolescência olhando a religião à distância, como algo alheio à minha geração. Contudo, percebo hoje uma sede espiritual inesperada entre muitos de nós nós que não tivemos educação cristã. Há uma busca de sentido, um anseio por algo maior que o material. E esse movimento interior faz com que até aqueles que andaram longe da fé reparem com curiosidade – e esperança – na eleição de um novo Papa.
Quando o Papa Francisco foi eleito (2013), trouxe uma mensagem bem clara: a Igreja deveria ser uma casa de portas abertas a todos. Ao longo do seu pontificado, insistiu numa Igreja “em saída”, próxima dos pobres, dos marginalizados, disposta a dialogar com quem pensa diferente. Francisco plantou as sementes de uma comunidade cristã mais acolhedora e misericordiosa, que não teme sujar os pés nas periferias. É verdade que esse esforço de abertura nem sempre agradou a todos dentro da instituição – mudanças e abordagens novas geraram também tensões internas. Mas o seu legado de compaixão, simplicidade e inclusão abriu caminhos e expetativas: ensinou-nos que a fé ganha vida quando se abre em gestos de acolhimento.
Agora, com o início do pontificado de Leão XIV, vive-se um momento de expectativa serena e confiante. Não se trata de “comparar Papas”, como se a Igreja fosse um pódio de vencedores e vencidos – longe disso. Afinal, a Igreja caminha há dois mil anos guiada por Cristo, entre luzes e sombras, porque administrada por homens falíveis. Cada Papa acrescenta um capítulo a essa longa história sagrada, mas nenhum ocupa o centro: é Jesus quem permanece no coração da Igreja, ontem, hoje e sempre. Com Leão XIV, temos sobretudo a continuidade de uma jornada, mais do que uma rutura. O seu primeiro gesto, ao saudar a multidão com “A paz esteja convosco”, indicou a vontade de prosseguir na trilha do diálogo e da paz traçada pelo seu antecessor.
Percebo em Leão XIV uma espiritualidade profunda, inteligência clara e uma ponderação nas palavras que inspira confiança. Logo nos primeiros dias, o novo Papa mostrou-se atento aos desafios humanos atuais: num dos seus discursos iniciais, convidou-nos a refletir sobre “o isolamento provocado por modelos de relacionamento cada vez mais pautados pela superficialidade, pelo individualismo e pela instabilidade afetiva”. Isto também se nota na vivência da fé. Ao dizer isso, Leão XIV demonstrou compreender a solidão e a falta de sentido que afligem tantos no mundo moderno – justamente aquela inquietação espiritual que faz com que a minha geração procure respostas. Palavras assim, vindas do líder da Igreja, soam como um abraço a quem se sente perdido no turbilhão do individualismo. Revelam um pastor disposto a dialogar com o mundo real, com as suas dores e as suas buscas.
Depois de um tempo de grande esforço de abertura “aos de fora”, surge agora um tempo para a cura interior. Muitas feridas dentro da própria Igreja precisam de cuidado: divisões ideológicas, desconfianças mútuas, escândalos que abalaram a confiança. É urgente restaurar a unidade, promover a reconciliação e aumentar a tolerância à diversidade dentro da unidade da Igreja. Leão XIV tem diante de si a tarefa de ser um artífice de paz também dentro de casa – consolidando o que foi conquistado externamente, mas sarando as divisões internas antes que se aprofundem. Uma Igreja que aspira a acolher a todos deve também, como uma família, estar reconciliada consigo mesma. Acredito que o novo Papa está ciente disso e trará a serenidade necessária para costurar os fios soltos, semeando entendimento onde houver discórdia.
Intuo esperança ao vislumbrar este novo capítulo. A eleição de Leão XIV reacende em mim – e em muitos contemporâneos meus – o interesse por acompanhar de perto os rumos da Igreja. Há algo de pessoal nessa história: ver a fé a renovar-se e a tentar responder às inquietações do nosso tempo toca até quem se imaginava distante. Com humildade, coragem e diálogo, o Papa Leão XIV inicia o seu ministério dizendo ao mundo que vale a pena construir pontes e derrubar muros, dentro e fora da Igreja. Cabe a nós, que assistimos a tudo isso com o coração sedento de sentido, caminhar juntos – de mãos dadas, como ele mesmo disse – neste tempo de esperança, mas marcado por tantos motivos de desesperança. Que venham os próximos capítulos desta caminhada de fé: estarei atento, acompanhando e partilhando as minhas reflexões com renovado entusiasmo, confiante de que a Igreja, guiada por Cristo, saberá encontrar o caminho para a paz e da unidade. Afinal de contas, a Igreja sabe quem é o Caminho.