23/02/22

Pobreza na Igreja – Missão social

A dada altura chegou-me aos ouvidos a seguinte ideia: a Igreja não se deve desprender totalmente dos bens temporais pois, caso isso aconteça, ela já não poderia exercer a sua missão na ajuda aos mais necessitados. ??? Isto vêm me recordar várias questões sobre as quais eu já tinha reflectido. O que acham da afirmação??? Eu não concordo. A missão sócio-caritativa aparece como um convite porque existem bens temporais. Assim, a Igreja possuindo esses bens, é convidada a desprender-se do que tem e partilhá-lo com quem necessita.

Mas o que seria da Igreja se não tivesse nada? Já não poderia exercer a sua missão? Claro que podia. A Igreja, vivendo em pobreza quase levada ao limite, seria convidada, nesse caso, a agir tal qual as comunidades primitivas que «possuíam tudo em comum» (cf. Act 2, 45) e assim, viveriam da partilha pontual solucionando as dificuldades apresentadas pelos seus membros.

Porque é que eu levanto esta questão? É que parece que muitos cristãos vêem o trabalho social da Igreja como algo prioritário e muitas vezes constatam-se nas paróquias inúmeras instituições de solidariedade social que deixam muito a desejar na mensagem cristã presente nas instalações, nas pessoas, e nas ofertas (tanto materiais como espirituais).Constata-se ainda que às vezes inicia-se uma disputa por ver quem tem mais obra social.

Vamos então ter estas instituições só por ter? Só para dizer que a Igreja tem e faz? Não podemos esquecer que o mandato único do Senhor foi de fazer discípulos de todos os povos, baptizá-los e ensina-los a cumprir tudo o que Ele nos mandou (cf. Mt 28, 19-20). Se este não for o objectivo da criação das nossas Instituições sociais, de nada servem. Aliás, servem para desviar as nossas atenções do essencial. O Senhor ficaria muito contente pela criação destas instituições se fosse com o objectivo de levar os mais pequenos, os mais necessitados, os mais frágeis, etc. até Ele. Mas muitas vezes nós nem O deixamos entrar. Trata-se de uma instituição como qualquer outra, talvez com mais qualidade por não ser financiada pelo estado (humor!!!), com a única diferença de que é liderada por um Padre ou qualquer outro membro da Hierarquia ou da família cristã.

Quem está a ler esta postura radical da minha parte poderá levantar a seguinte questão: então se vamos acabar com as instituições todas, o que será dos pobres, dos doentes e dos dos velhinhos de quem ninguém que saber?

Pois a quem levanta esta questão eu esclareço. As Instituições devem existir nos âmbitos paroquias, das ordens, congregações, institutos, movimentos, etc. Porquê? Porque há vontade e dinheiro para isso. Se não houvesse, não seria pecado. Mas, e mais importante, devem existir como veículos da transmissão da fé em Jesus Cristo que nos congregou em Igreja.

Por fim, adianto uma última ideia. As questões sociais e de organização da vida das pessoas nas diversas áreas (saúde, educação, etc) são uma tarefa que compete ao Estado. Nós, Igreja, muitas vezes nos comportamos do seguinte modo (é o que eu vejo): criamos nós os meios, fazemos o que o Estado não faz, e não dizemos nada como acto de revolta… pelo contrário, até ficamos contentes porque fizemos qualquer coisa. Será que estamos verdadeiramente a ser cristãos ao colaborar neste “desleixo Estatal”? Penso que não. Desde cedo, e os meu colegas teólogos que o confirmem, os Profetas começaram por agir contra a Corte Real apontando todos os podres da organização política. Nunca se viu um profeta a ver a desgraça e, vendo-a, dizer: “vou eu fazer!!!” Não… eles denunciavam. Sejamos nós também profetas neste mundo em que a união faz a força – tanto a união da “voz” (que deveria imperar) como a união do “silêncio” (que parece ser a nossa preferida)!!!