15/06/21

Quando a vida pesa: o que fazemos quando já não sabemos o que fazer

Há momentos em que a vida deixa de caber nos slogans fáceis. A proximidade da morte, o sofrimento prolongado, a fragilidade extrema colocam perguntas que ninguém escolhe fazer, mas que acabam sempre por chegar. Nesses momentos, o debate sobre aborto, eutanásia ou fim de vida deixa de ser teórico e passa a ser brutalmente concreto.

Costuma dizer-se que a discussão sobre a eutanásia é uma discussão sobre liberdade. Sobre o direito de decidir. Sobre autonomia. Mas esta forma de colocar o problema é, no mínimo, incompleta. Porque antes de perguntar quem decide, é preciso perguntar o que está realmente em causa. A tradição cristã, expressa de forma clara no Catecismo da Igreja Católica e aprofundada em documentos recentes como a Samaritanus Bonus, parte de uma convicção simples e exigente: a vida humana não é um objeto disponível. Não é propriedade privada. Não é algo que se usa enquanto funciona e se descarta quando pesa. A vida é o primeiro bem, precisamente porque sem ela não há liberdade, nem direitos, nem escolhas.

É por isso que a Igreja rejeita tanto o aborto direto como a eutanásia. Não por insensibilidade ao sofrimento, mas porque entende que eliminar a vida não é eliminar o sofrimento. É eliminar a pessoa que sofre. Tal como não se combate a pobreza eliminando os pobres, não se responde à dor eliminando quem a carrega. Aqui surge uma distinção que muitas vezes se perde no debate público: não é a mesma coisa provocar a morte e aceitar os limites da medicina. Recusar o encarniçamento terapêutico não é desistir da pessoa. É reconhecer que nem tudo o que é tecnicamente possível é humanamente devido. Há tratamentos que já não curam, não aliviam, não acompanham. Apenas prolongam artificialmente o processo de morrer. A sua suspensão pode ser um ato de lucidez e de respeito, não de abandono.

O que nunca pode ser suspenso é o cuidado. Mesmo quando a cura já não é possível, a pessoa continua a precisar de presença, de alívio da dor, de apoio psicológico, de acompanhamento espiritual. É aqui que entram os cuidados paliativos, tantas vezes esquecidos no debate político. Eles não apressam a morte nem a atrasam artificialmente. Humanizam o tempo que resta. Ajudam a viver até ao fim. A legalização da eutanásia é frequentemente apresentada como um progresso civilizacional. Mas a história lembra-nos algo desconfortável: sociedades antigas já praticavam a eliminação dos mais fracos, dos doentes, dos inúteis. O verdadeiro avanço não está em facilitar a morte, mas em criar condições para que ninguém se sinta um peso, um erro ou um fardo descartável.

A dignidade humana não depende da utilidade social, da autonomia funcional ou da ausência de dor. Não diminui com a doença, com a dependência ou com a proximidade da morte. Se aceitarmos que há vidas que já não merecem ser vividas, abrimos uma porta perigosa. Hoje são os doentes terminais. Amanhã quem sofre de depressão. Depois os idosos sós. A lógica é sempre a mesma, mesmo quando se veste de compaixão.

No centro desta visão está uma ideia exigente: ninguém vive sozinho e ninguém morre sozinho. A vida tem sempre uma dimensão relacional. Afeta famílias, comunidades, profissionais de saúde, a sociedade inteira. Decidir provocar a morte não é um ato privado. Tem consequências coletivas profundas sobre a forma como olhamos os mais frágeis. A proposta cristã não é heroica nem romântica. É profundamente realista. Diz apenas isto: quando já não sabemos o que fazer, ainda podemos cuidar. Ainda podemos estar. Ainda podemos aliviar, acompanhar, amar. E isso, mesmo quando tudo o resto falha, continua a ser profundamente humano.

Talvez a pergunta decisiva não seja se temos o direito de morrer, mas se estamos dispostos a assumir o dever de cuidar até ao fim.