Há perguntas que a cultura tenta empurrar para o canto, como se fossem má educação. A morte é uma delas. Fala-se dela quando acontece, e depois muda-se de assunto. Só que a morte não muda de assunto. Ela fica. E obriga-nos a olhar de frente para aquilo que realmente acreditamos. A teologia chama escatologia ao que vem depois. Os “novíssimos”. Não como curiosidade mórbida, mas como realismo cristão. Porque a fé cristã não é um projeto de bem-estar. É um caminho para a vida eterna.
1. A fé cristã ou é ressurreição ou é outra coisa qualquer
O centro não é uma vaga sobrevivência da alma. O centro é a ressurreição. Tertuliano dizia: a ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos. E São Paulo vai mais longe: se Cristo não ressuscitou, então a fé é vazia e a pregação é inútil (1 Cor 15). Não há cristianismo sem esta pedra. Jesus não apresenta a ressurreição como teoria. Liga-a à sua Pessoa: “Eu sou a Ressurreição e a vida” (Jo 11, 25).
E liga a vida eterna à Eucaristia, com uma clareza que incomoda quem preferia que Ele tivesse sido mais simbólico: quem come a sua carne e bebe o seu sangue tem a vida eterna e Ele o ressuscitará no último dia (Jo 6). Ressuscitar não é voltar a esta vida como antes. Cristo ressuscitou com o seu corpo, mas não voltou à normalidade terrestre. Assim também nós: ressuscitaremos com o nosso corpo, mas transfigurado, corpo glorioso (1 Cor 15).
Isto também ajuda a esclarecer outra coisa: reencarnação não é ressurreição. A Bíblia é direta: morremos uma só vez, depois vem o juízo (Heb 9, 27). A esperança cristã não é uma roda sem fim. É uma história que caminha para a consumação.
2. A morte é um enigma, mas não é um absurdo
A Igreja chama à morte o “último inimigo”. Não era parte do plano original, entrou no mundo pelo pecado. Por isso Cristo vem enfrentá-la, não com discurso bonito, mas com a Cruz e a Ressurreição. Ao mesmo tempo, para quem morre em Cristo, a morte deixa de ser derrota absoluta. A liturgia diz algo que merece ser repetido sem pressa: para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada.
3. Existe um juízo após a morte?
Sim. E o cristão não precisa de fingir que isso não existe para parecer simpático. A morte fecha o tempo de decisão. Enquanto estamos vivos, ainda há conversão, ainda há arrependimento, ainda há graça. Depois, a pessoa recebe a sua retribuição eterna no juízo particular, diante de Cristo (2 Cor 5, 10). Isto não é para alimentar pânico. É para dar seriedade ao presente. Se eu adio Deus para sempre, um dia descubro que “para sempre” era hoje.
4. O céu não é um mito, é a vocação
O céu é comunhão plena com Deus. Visão face a face. Felicidade definitiva. Não porque finalmente escapámos do mundo, mas porque entrámos no fim para o qual fomos criados. São Paulo fala dele como alguém que tem saudade do que ainda não viu: os sofrimentos de agora não se comparam com a glória que há de revelar-se (Rm 8, 18). E Jesus define vida eterna de modo surpreendentemente simples: conhecer a Deus (Jo 17, 3). O Apocalipse usa imagens porque não há linguagem humana suficiente: uma cidade onde não há noite, onde Deus é a luz, onde não há lágrimas nem morte (Ap 21). A ideia é esta: Deus não é um prémio. Deus é o destino.
5. Purgatório: purificação, não segunda oportunidade
A Igreja ensina que ninguém entra na comunhão com Deus levando consigo resquícios de pecado. E sabe também que poucos morrem já totalmente purificados. Por isso fala do purgatório: não como “sala de espera”, mas como purificação final dos que já pertencem a Deus. E isto está ligado a algo muito antigo: rezar pelos defuntos. A Escritura mostra essa prática (2 Mac 12). A Igreja mantém-na, sobretudo oferecendo a Eucaristia pelos falecidos. O purgatório tem uma lógica de amor: Deus não baixa o nível do céu. Ele eleva-nos, purificando-nos.
6. Indulgências: medicina espiritual, não superstição
As indulgências não são “comprar perdão”. A culpa é perdoada na Confissão. A indulgência diz respeito à pena temporal, à desordem que o pecado deixou e que precisa de ser reparada. E a Igreja aplica o tesouro de Cristo e dos santos a favor de nós e também das almas do purgatório. É a lógica da comunhão dos santos levada a sério.
7. Inferno: existe, mas não é uma obsessão
A Igreja afirma a realidade do inferno. Jesus fala dela. O Catecismo ensina-o com clareza. Mas também explica o essencial: a principal pena é a separação eterna de Deus. Deus não predestina ninguém para o inferno. A condenação é auto-exclusão. Deus respeita a liberdade até ao fim. O inferno é a tragédia de uma liberdade que se fecha para sempre. E aqui convém sobriedade. O Concílio de Trento já pedia isso. Nada de teatralidade barata. O objetivo não é assustar, é chamar à conversão enquanto há tempo.
8. Cristo voltará, e a história não termina em pó
O Credo diz: Cristo virá julgar os vivos e os mortos. Ninguém sabe quando. Nem nos interessa saber. O Evangelho insiste em vigilância, não em calendários. Antes dessa vinda, a Igreja passará por uma provação final. O Catecismo fala da impostura religiosa que tenta substituir Deus por um pseudo-messianismo. Em português simples: haverá pressão para trocar a verdade por uma mentira confortável.
9. Juízo final: mais esperança do que terror
O juízo final não é uma ameaça para controlar pessoas. É, antes de tudo, uma promessa: no fim, a verdade aparece. A justiça cumpre-se. O bem escondido não fica esquecido. Bento XVI disse algo precioso: o juízo final é imagem decisiva da esperança. Deus é justiça e é graça. Uma não cancela a outra.
10. Novos céus e nova terra
A criação não é descartável. Será transformada. Deus prepara uma nova habitação onde habita a justiça. Como será isso? Não sabemos. E é bom não fingir que sabemos. O que sabemos é o essencial: no fim, Deus enxugará todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem luto, nem dor (Ap 21, 4).