06/05/21

Trabalho, vida e tempo: quando o equilíbrio deixa de ser um luxo

Uma das frases que mais escuto é simples e inquietante: não tenho tempo. Não é dita por pessoas desocupadas, mas por pessoas cansadas. E quase sempre revela algo mais fundo do que uma agenda cheia. Revela um desequilíbrio.

O Livro do Eclesiastes lembra-nos que há um tempo para tudo. Não apenas um tempo biológico ou cronológico, mas um tempo com sentido. O drama começa quando tudo na vida passa a ser urgente e quase nada verdadeiramente importante.

A tradição cristã nunca separou o trabalho da vida. Pelo contrário. Sempre insistiu que o trabalho faz parte da vocação humana. Mas nunca disse que ele é o centro. O centro é o sentido. Quando o trabalho deixa de servir a vida e passa a ocupá-la por inteiro, algo se desordena.

Hoje fala-se muito de equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal. O tema entrou nos departamentos de recursos humanos, nas formações, nos discursos empresariais. Mas continua a ser vivido com dificuldade. Porque o problema não está apenas fora de nós. Está nas escolhas que fazemos e nas prioridades que aceitamos sem questionar.

Não nos tornamos santos por trabalhar mais. Nem mais humanos. A vida revela as nossas prioridades sem necessidade de discursos. Basta olhar para a agenda. Para o cansaço acumulado. Para as relações adiadas. Para os fins de semana sempre adiados.

As gerações mais novas perceberam isto mais cedo do que nós. Não porque não queiram trabalhar, mas porque não querem repetir modelos de vida onde o sucesso profissional foi pago com ausência, solidão e desgaste emocional. A pergunta é legítima: o que significa, afinal, ser alguém na vida?

Um cristão não rejeita a ambição. Mas sabe que há uma hierarquia. Deus. As relações mais próximas. O trabalho. Quando esta ordem se inverte, o equilíbrio perde-se e surgem ídolos. Às vezes disfarçados de virtudes: excesso de trabalho, produtividade sem limites, reconhecimento constante, dinheiro como medida de valor.

O trabalho pode tornar-se um vício tão destrutivo como qualquer outro. Sobretudo quando nasce da necessidade de provar valor, de compensar feridas antigas ou de responder a expectativas que nunca chegam a ser satisfeitas.

Dizer "não" faz parte do caminho espiritual. Não a tudo. Mas ao que rouba tempo à vida que Deus sonhou para nós. O descanso não é preguiça. É obediência. Toda a criação culmina no descanso. Também a vida humana. O Domingo não é um luxo religioso. É um sinal antropológico. Um lembrete de que o tempo não nos possui. Mesmo quando somos obrigados a trabalhar nesse dia, não podemos perder de vista o seu centro.

Jesus não viveu escravo da urgência. Nem mesmo quando o amigo Lázaro estava doente. Esperou. Discerniu. Agiu no tempo certo. A urgência é muitas vezes inimiga do que é importante.

Antes de começar o seu ministério, Jesus ouviu do Pai: Tu és o meu Filho amado. O amor precede o trabalho. Quando o que precede o trabalho é apenas a pressão do sucesso, acabamos emocionalmente falidos, mesmo quando tudo parece correr bem.

O equilíbrio perfeito não existe. Há fases de maior exigência profissional. Há momentos em que a vida familiar ocupa quase todo o espaço. O essencial não é a ausência de oscilações, mas o rumo. Saber para onde vamos. Saber corrigir quando nos desviamos.

A pergunta final é simples e exigente: a forma como organizo o meu tempo liberta-me ou aprisiona-me? Aproxima-me de Deus e das pessoas que amo ou afasta-me delas?

Dar sentido à vida não é uma tarefa para o fim da carreira. É um trabalho diário. Silencioso. Espiritual. E profundamente humano. Porque no fim, não será o quanto produzimos que dará sentido ao tempo. Será a forma como o vivemos.