Na amizade, não existe preconceito. Sem amizade, todos pensam conhecer a verdade.

O preconceito. Quando falamos deste termo, facilmente a nossa cabeça se resvala a contemplar graves abusos na nossa sociedade, onde temas como racismo, educação, ambiente familiar e outros nos faz ter uma ideia antecipada e generalizada de determinado grupo. Mas o preconceito ultrapassa estas questões. Existe, também, nas relações que quotidianamente estabelecemos com uma pessoa.

Liturgia: espaço de fecundidade e não de evangelização

Hoje, motivado por uma conversa que tive com alguns colegas meus, decidi partilhar um breve apontamento eclesiológico que já há algum tempo venho a defender. À primeira vista, para alguns, poderá parecer algo óbvio, da aceitação de todos. Mas, na verdade não é assim. A questão levantada é a seguinte: pode a Liturgia ser considerada, em primeiro lugar, como espaço de evangelização? Ou seja, será a Liturgia o espaço que a Igreja reserva para que as comunidades possam fazer o primeiro anúncio?

Para responder a esta questão, poderia servir-me do esquema básico da teologia sistemática. Mas prefiro começar logo pelos dados da minha argumentação, saltando qualquer fundamentação bíblica e patrística que possam estar, e estão, na sua base.

Grande Missão na Conceição de Faro e no Mundo


O que é?
Uma iniciativa que conta com o alto patrocínio das Comunidades do Caminho Neocatecumenal. Em 10.000 praças distribuídas por 120 países, a Igreja  vai ao encontro do Homem de hoje para lhe dar as razões que necessita para acreditar e dar um novo rumo à sua vida.
CONCEIÇÃO DE FARO é uma das destas milhares de praças. Durante 5 Domingos, cristãos empenhados e comprometidos estarão no Largo da Igreja fazendo catequeses de anúncio. Durante 5 Domingos, dar-se-ão respostas a algumas destas questões: Quem é Deus para ti? Já experimentaste na tua vida que Deus existe? Tu, porque vives? O que é a Igreja?



1º Domingo [07-04-2013]
Dezenas de pessoas acorreram à pequena Aldeia da Conceição. Foi a primeira vez que se fez algo semelhante. Nas esquinas ou encostadas às paredes, eram visíveis algumas vidas que se moviam pela curiosidade e queriam saber mais. Foi uma oportunidade para conhecer este Deus que se revelou à humanidade, e que agora se quer revelar a ti. No entanto, continuamos cegos, não queremos ver este Jesus que pode e quer mudar as nossas vidas; Um Jesus que pode e quer curar-nos, mas que exige algo de nós.

O Envio [13-04-2013]
Na Sé de Faro, juntaram-se todas as comunidades algarvias do Caminho Neocatecumenal. Também o nosso bispo, à semelhança do que havia feito o nosso  Papa Emérito, se quis associar a esta iniciativa. Como sucessor dos apóstolos, D. Manuel Neto Quintas, em plena celebração Eucarística, enviou as comunidades  algarvias para irem ao encontro das "ovelhas que andam dispersas".

2º Domingo [14-04-2013]
Hoje foi o dia se percebermos que o Espírito Santo está a atuar no coração dos homens  que acorrem a esta praça. Pessoas que foram, talvez por curiosidade, no primeiro Domingo, voltaram a associar-se. Ao longe, nos habituais cafés da nossa terra, muitos eram os que ouviam, sem se envolver totalmente. Certamente outros estariam em casa, nas suas varandas ou portas a escutar, dada a qualidade do som.

O que fazer?
Temos 3 Domingos pela frente. Isto significa, três oportunidades. Não perdemos nada. É só ir ao Largo da Igreja (ou a outra praça mais próxima da nossa residência) e participar neste encontro. Certamente Deus vai falar; vai dar razões à nossa existência; vai anular tantos preconceitos sobre realidades que nos estão tão próximas. Vamos apostar numa mudança de vida. Vamos participar. No próximo Domingo, pelas 15h30, na Conceição de Faro, ou noutra das 10.000 praças espalhadas pelo mundo, Deus espera-te.

Uma "pequena história" para nos levar a uma "grande verdade"



Com um bebé nos braços, uma mulher muito assutada chegou ao consultório do seu ginecologista e disse-lhe:
- Doutor, por favor ajude-me. Tenho um problema muito sério. O Meu bebé ainda não cumpriu um ano e já estou outra vez grávida. Não quer ter filhos em tão pouco tempo, prefiro um espaço maior entre os dois.

O médico perguntou:
- Muito bem, que quer que eu faça?

Ela respondeu:
- Desejo interromper a minha gravidez, e estou a contar com a sua ajuda.

O médico ficou a pensar um pouco e depois de algum tempo disse-lhe:
- Acho que tenho um método melhor para solucionar o problema, e é menos perigoso para si.

A mulher sorriu, pensando que o médico aceitaria ajudá-la.
- Veja, senhora, para não ter que estar com dois bebés ao mesmo tempo em tão curto espaço de tempo, vamos matar este menino que está nos seus braços. Assim, a senhora terá um período de descanso até que o outro nasça. Já que vamos matar, não há diferença entre um e outro. E até é mais fácil sacrificar este que tem nos seus braços, uma vez que a assim a senhora não corre nenhum perigo.

A mulher assustou-se e disse:
- Não, doutor. Que horror; que horror! Matar uma criança é crime.

- Também penso o mesmo, senhora. Mas você apareceu-me tão convencida de fazê-lo que por um momento pensei em ajudá-la.

O médico sorriu e, depois de algumas considerações, viu que a sua lição tinha surtido efeito. Convenceu aquela mãe que não há diferença alguma entre matar uma criança que já nasceu e matar outra que está por nascer, uma vez que já está viva no seio materno.

O crime é exatamente o mesmo.

Autenticidade de vida, vivida na responsabilidade de uma liberdade assumida


A semana santa aproxima-se. Mais uma Quaresma passada, e tantas já vividas. Cada Quaresma é para nós um memorial da Aliança que Deus faz connosco. Memorial porquê? Porque a Aliança está feita, de uma vez por todas; porque Deus é  fiel e não se esquece do seu povo; porque o Homem é pecador e está sempre chamado a retomar a uma vida de fidelidade a esta Aliança.

A Quaresma é para isto. Um tempo que nos recorda que é sempre necessário olharmos para nós, revermos as nossas atitudes, e regressar à casa do Bom Pai, um Pai misericordioso.

A tentação, durante toda a nossa vida, será sempre a de vivermos como aquele filho mais novo. Vivia na casa do pai, tinha tudo, podia tudo, conseguiria tudo. A única exigência seria a da fidelidade aos pedidos do pai. Uma exigência que passava pela responsabilidade nas pequenas (grandes) coisas que pai lhe pedia.

Mas este filho não se contenta com isso. Olhando para fora da casa, contempla toda uma vida que não é a sua, não é para si, mas é a que lhe seduz. Uma vida a desfrutar; uma vida a gozar; uma vida sem responsabilidades, de total "liberdade" e independência; uma vida, acreditava ele, em que poderia ser totalmente Homem.

Esta felicidade querida por aquele filho, tem a mesma duração do dinheiro que possui. Termina o dinheiro, termina essa felicidade. O que tem agora? Uma vida de servidão, de escravidão, de sujeição à maior maldição que lhe pode recair. Não tem nada, não pode nada, nem sequer é mais dono de si mesmo. Cuida de porcos, e nem a comida dos porcos pode comer... "Como era boa aquela vida que eu tinha quando vivia com o meu pai".

Olhemos cada um de nós para a nossa vida. Tantas vezes, na tentativa de viver uma vida livre, vivemos uma vida rebelde, de total libertinagem. Confundimos aquilo que é a liberdade. Esta só é autêntica quando vivida num plano de escolhas, de opções, de renúncias.

Eis o tempo favorável para fazermos as nossas. Não estamos condenados a viver uma vida igual à de tantos. A nossa única condenação é a de sermos livres, e mesmo essa não é condenação mas graça, dom.

A cada dia, façamos as nossas opções. Assumamos cada momento da nossa vida. De manhã toca o despertador. Não estou condenado a levantar-me àquela hora para trabalhar ou ir para a escola. Fui abençoado com um novo dia que começa, no qual vou ser feliz ao proporcionar momentos de felicidade aos outros. Este é o espírito de um amor vivido em tudo: assumir em cada momento a felicidade que não posso perder e que, por isso, vou agarra-la.

Permita Deus que não vivamos uma vida medíocre, de mínimos. Autenticidade de vida, vivida na responsabilidade de uma liberdade assumida, é o que eu desejo para todos na renovação que Deus quer operar em nós nas celebrações pascais que se aproximam. E Deus, Pai bondoso e misericordioso, que sempre está à nossa espera, aguarda, neste preciso momento, que nos aproximemos d'Ele.

Assim seja.

Reflexão do 2º dia da Novena à Senhora da Purificação


Estimados padres,
Amigo diácono,
Caros colegas e outros amigos que nos visitam,

No início da nossa oração, cantávamos que a porta da fé está sempre aberta para nós. Por ela entramos na vida e na comunhão com Deus. E mais à frente, dizíamos ainda que, de uma mulher nasceu o Verbo feito Homem; agora, quem acolhe este Verbo, Jesus, encontra a vida eterna. O que é que podemos concluir? Que acolher Jesus, nascido de Maria ou entrar pela porta da fé, são a mesma coisa: ambas as atitudes significam o alcance da vida eterna que é uma vida de comunhão com Deus.

Para percebermos o alcance desta figura da porta escancarada pela qual todos somos convidados a entrar, convido-vos, brevemente a relembrar algumas atitudes a que a Sagrada Escritura nos convida, a partir das portas bíblicas. Por exemplo, a porta convida-nos a:
  • Uma atitude de oração: Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto, fecha a porta e reza em segredo a teu Pai (Mt 6, 6).
  • Uma atitude de prudência: As virgens que estavam prontas entraram com o noivo para a sala das núpcias, e fechou-se a porta. (Mt 25, 10)
  • Uma atitude de esperança: Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, está salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem (Jo 10, 9).

Outros poderiam ser os exemplos. Mas para o nosso propósito chega-nos estes, precisamente para nos ajudar a entender o relato da anunciação. Estas três atitudes: oração, prudência e esperança, assim como outras, encontramo-las em Maria. Vejamos:
  • Às palavras do Anjo, Maria responde com a oração. Confronta a Palavra de Deus, presente ali no Anjo e tenta perceber o que Deus quer para ela; Este é o verdadeiro sentido de uma oração perfeita: o confronto da Palavra de Deus com a nossa vida, numa atitude permanente de fazer a sua vontade.
  • Nesta tentativa de Maria de compreensão dos planos de Deus, Maria revela uma segunda atitude, a da prudência: Como é isso possível? É a mesma prudência das Virgens prudentes: sabem que o seu senhor poderá vir a qualquer momento, e por isso não se fecham à possibilidade de ele chegar. Assim Maria, que embora não compreendendo, não rejeitou a possibilidade daquele ser o momento de receber o seu Senhor.
  • Uma terceira atitude de Maria, presente no texto da anunciação é a da esperança. O seu sim sem limites, resulta de uma esperança fundada na fé, de que o Senhor cumprirá as promessas ali transmitidas pelo Anjo.

É interessante imaginar a imagem que Bernardo de Claraval, numa Homilia de Advento, desenha sobre este momento. Diz, mais ou menos, o seguinte: Depois do fracasso dos nossos primeiros pais o mundo inteiro ficou às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar de novo no mundo, e bate à porta de Maria. E adianta S. Bernardo que no momento do pedido feito a Maria, o céu e a terra como que suspenderam a respiração. Será que ela vai dizer sim? Será que a sua humildade vai fazer com que negue este projeto? Efetivamente, Maria conseguiu ser humilde e generosa: e responde SIM!

Por esta razão, com toda a legitimidade, é verdade que reconhecemos que Jesus é a porta – Ele próprio o diz -, mas não com menos verdade afirmamos que Maria também é a porta. Nós próprios, muitas vezes a invocamos assim: na ladainha, Porta do Céu: rogai por nós. Ou ainda na Antífona II depois das Completas: Santa Mãe do Redentor, porta do Céu. E qual a razão para Maria se ter tornado porta do Céu? A resposta, encontramo-la na mesma Antífona: Vós, que acolhendo a saudação do Anjo, gerastes, com admiração da natureza, o vosso santo Criador. 

Senhores padres,
Caros irmãos,
Maria é para nós uma porta, também ela sempre aberta, porque Jesus a escolheu como caminho para vir até nós. Agora, continua a ser o caminho de que nós nos devemos servir para ir até Jesus. Para entrar neste caminho, imitemos as atitudes de Maria na anunciação: oração no confronto com a Palavra de Deus, prudência disponível e esperança fundada na fé.

Possamos nós repetir, tal como santo Ambrósio, aquela pequena oração tão simples e tão rica: «Abre-nos, Senhora, as portas do Céu, já que tu tens a chave.».

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.
Dado em Évora, aos 25 dias de Janeiro de 2013

Nelson Rodrigues

A CRISE DA TRANSMISSÃO DA FÉ


O FACTO: ESTAMOS A ENFRENTAR UMA CRISE

            Na Igreja Ocidental, já há muito tempo que percebemos que estamos a atravessar uma crise no que toca à transmissão da fé. Propomo-nos, por isso, a analisar aquelas que poderão ser parte da causa de tal fenómeno, seguindo o pensamento de Juan Martín Velasco.
            Os indícios imediatos de tal crise, encontramo-los essencialmente em dois aspetos que nos são familiares: o envelhecimento das comunidades cristãs, que compromete o desenvolvimento sustentável das mesmas, e as dificuldades experimentadas por pais e educadores na transmissão das suas convicções, valores e hábitos de vida, sobretudo no campo da religião. W. Kasper afirma mesmo que a crise da transmissão da fé é um problema não só da Europa, mas sim mundial. E nós acrescentamos que não se trata só de uma dificuldade no campo da fé, mas generalizada em outros âmbitos.

1. Como compreender a crise da transmissão da fé?
            Em primeiro lugar, muitos daqueles que refletem sobre este assunto, dizem que esta crise inscreve-se no quadro de uma crise mais ampla, que chamaremos de amnésia cultural. Mas já falaremos melhor sobre assunto.
            Uma primeira hipótese para uma resposta plausível avança que a crise generalizada da fé vem-se a desenvolver desde o começo da Modernidade, difundindo-se entre a massa das populações das sociedades avançadas desde a segunda metade do século XX.
            Alguns sociólogos da religião, não contrários a esta primeira hipótese, preferem falar de uma crise da transmissão da cultura, dos valores e das convicções; crise de comunicação e de diálogo entre as gerações, nessas sociedades. Para estes, no início do fenómeno encontramos a exclusão dos mais velhos, ou seja, existe uma notória desvalorização do discurso dos anciãos por parte dos jovens. Também os pais constatam que estão a fracassar em matéria de educação. Por exemplo, tendo presente os resultados dum estudo realizado em França, no início do século XX, 75% dos franceses abraçavam a profissão do pai. Atualmente, não chega a 20%.
            Nós, que diariamente contactamos com esta realidade, percebemos que a crise da transmissão da fé está ligada a uma “destotalização” da experiência humana. Ou seja, temos uma sociedade que eliminou os códigos globais e, por isso, não existe uma coerência entre a experiência humana de todos, precisamente por não haver um paradigma comum. Cada pessoa, hoje, aparece como fruto de um processo de socialização muito distinto dos demais. Assim ouso afirmar que é completamente errado pensar que pode haver uma evangelização comum a todos que culmine sempre em conversões.
            A crise de que falamos, prende-se ainda com o predomínio da inovação, a vivencia do presente e do instante, que faz perder a referência a uma ascendência e uma linhagem partilhada e ainda à memória do passado. Ora, sabemos que estes são elementos estruturais das construções religiosas e que, sem eles, não pode haver religião.

2. A secularização da cultura
            Assistimos, hoje, a uma autonomização dos diferentes aspetos da vida pessoal e social, ou seja, a religião já não é determinante e passou a ser mais uma “coisa” no meio de tantas. 
            Durante muito tempo na História da Igreja, o Sistema de assimilação da fé adotado foi o Teocrático. Assim, cultura, economia, política, família, afetividade, moral e outras dimensões, estavam absorvidas pela religião. Na verdade, hoje, a transmissão da fé não se quer como resultado dum sistema destes. Pelo contrário, o sistema cristão procura apostar na autonomia de cada dimensão da vida humana, fazendo parte de um mesmo corpo. Será a fé (religião), a dotar de sentido, cada uma das dimensões.
            No entanto, percebemos que a sociedade ocidental de hoje aposta em sistemas liberais onde o religioso é um aspecto mais, com a sua especificidade, mas sem relação com os outros sectores. A religião não influencia nas opções políticas, na conduta moral, na realização da afectividade, ficando reduzida ao âmbito do privado e pessoal, o que leva a uma privatização da fé.
            No meio deste sistema liberal, totalmente secularizado, vamos assistindo a tentativas de imposição de um sistema mais ateu onde a fé está negada. Aceita-se o fenómeno religioso como uma alienação, estruturas de poder ou superstições que não humanizam e que, por isso, têm de se eliminar.
            O processo de socialização das classes juvenis, hoje em dia, acontece à margem da religião e da influência da Igreja. As classes juvenis realizam o processo de incorporação na sociedade e apropriação da cultura sem contacto algum com a religião ou sem que a religião forme parte dos seus conteúdos. Assim, este fenómeno irá desembocar num desaparecimento da religião no âmbito social e cultural. Por isso, a transmissão da fé, nos tempos atuais, não pode contar com as estruturas da sociedade e da cultura; deve, ao invés, convencer-se que terá de trabalhar com meios próprios. 

3. Crise da autoridade do tradicional: uma das causas
            Um aspeto, hoje, de grande importância é a inovação nas sociedades modernas, submetidas a mudanças cada vez mais rápidas e profundas. A par deste fenómeno, assistimos a uma ruptura do “imaginário da continuidade”. Ou seja, nunca como hoje, e já desde os tempos do Iluminismo, há uma insistência na autonomia da razão do indivíduo, com o convite ao sujeito a atrever-se a pensar por si mesmo, fugindo de qualquer sistema de socialização.
            Este panorama põe em questão o carácter normativo inerente ao próprio processo da tradição como transmissão de memória de uma linhagem. Ou seja, o próprio processo de socialização religiosa muda de configuração.
            O Homem de hoje abdica das diferentes autoridades, princípios e instituições rejeitando qualquer tentativa de regular os seus comportamentos. A pertença a uma religião já não resulta da herança de uma tradição mas sim de uma eleição pessoal de uma tradição, no meio de tantas. Chegamos, assim, à mais perfeita desintegração do próprio processo da transmissão de uma tradição.

A FAMÍLIA

            Qual o lugar que ocupa a família nesta crise da transmissão da fé? Ocupa, sem dúvida, um papel fundamental e a ela se deve uma boa parte desta crise. Hoje, nas famílias, convergem vários fatores sociais e culturais que as próprias não dominam, mas nos quais são envolvidas.

1. Desmoronamento da família tradicional
            Papel importante, ocupam, na nossa sociedade, os novos usos e as novas legislações em matéria familiar: legalização do divórcio, despenalização do aborto, reconhecimento social e legal das famílias monoparentais, redução das taxas de natalidade, elevação da idade média do matrimónio, aumento das taxas de divórcio, outro. Em simultâneo, assistimos a mudanças qualitativas na compreensão da família: da família espera-se, antes de mais, que se consagre à satisfação das necessidades emocionais e afetivas vividas no presente, sem que prime a consideração da linhagem e a sua continuidade. Por isso, não se valoriza com tanto destaque a estabilidade e a “filosofia da continuidade”.
            Não obstante a esta mudança, a pessoa humana, nas sociedades ocidentais, não deixou de acreditar que a família continua a ser um dos valores mais importantes, ou seja, continua a ser o grupo social de referência para as pessoas de todas as idades.
            Atualmete, a “família histórica” tem sido substituída pela “família fusional”: trata-se da família dos intercâmbios afetivos, vulneráveis aos desencantos amorosos. Tem sido, ainda, substituída pela família-club: é a família caracterizada pela autonomia concedida aos indivíduos que a compõem e que olha para as vantagens e desvantagens da vida em comum.
            Com este panorama, fica a pergunta: pode a família continuar a ser um órgão de transmissão, a seus filhos, da vida religiosa e da fé?

2. Influência, sobre a transmissão da fé, “das famílias”
            A mãe sempre teve, no que toca à transmissão, um papel preponderante. Ora, também elas se encontram, hoje, secularizadas. Devido aos trabalhos que exercem fora de casa, deixaram de ter tantas possibilidades de ter influência na educação dos filhos. Por outro lado, também as mães passaram a ter uma orientação crítica face à religião institucionalizada.
            Assim, percebemos que os jovens entram na idade madura com uma identidade religiosa muito debilitada porque os pais já não transmitem a fé aos filhos. Embora ainda persista alguma religiosidade por influência dos avós, também isso se encontra ameaçado.
            A Igreja hoje, deve atender a este fenómenos na hora de rever os métodos da evangelização. Todos nós estamos envolvidos neste processo. Somos conscientes que deverá haver uma forte aposta na valorização, formação e acompanhamento das famílias, como Primeira Igreja e primeira educadora das novas gerações, ou seja, da futura Igreja.