A CRISE DA TRANSMISSÃO DA FÉ


O FACTO: ESTAMOS A ENFRENTAR UMA CRISE

            Na Igreja Ocidental, já há muito tempo que percebemos que estamos a atravessar uma crise no que toca à transmissão da fé. Propomo-nos, por isso, a analisar aquelas que poderão ser parte da causa de tal fenómeno, seguindo o pensamento de Juan Martín Velasco.
            Os indícios imediatos de tal crise, encontramo-los essencialmente em dois aspetos que nos são familiares: o envelhecimento das comunidades cristãs, que compromete o desenvolvimento sustentável das mesmas, e as dificuldades experimentadas por pais e educadores na transmissão das suas convicções, valores e hábitos de vida, sobretudo no campo da religião. W. Kasper afirma mesmo que a crise da transmissão da fé é um problema não só da Europa, mas sim mundial. E nós acrescentamos que não se trata só de uma dificuldade no campo da fé, mas generalizada em outros âmbitos.

1. Como compreender a crise da transmissão da fé?
            Em primeiro lugar, muitos daqueles que refletem sobre este assunto, dizem que esta crise inscreve-se no quadro de uma crise mais ampla, que chamaremos de amnésia cultural. Mas já falaremos melhor sobre assunto.
            Uma primeira hipótese para uma resposta plausível avança que a crise generalizada da fé vem-se a desenvolver desde o começo da Modernidade, difundindo-se entre a massa das populações das sociedades avançadas desde a segunda metade do século XX.
            Alguns sociólogos da religião, não contrários a esta primeira hipótese, preferem falar de uma crise da transmissão da cultura, dos valores e das convicções; crise de comunicação e de diálogo entre as gerações, nessas sociedades. Para estes, no início do fenómeno encontramos a exclusão dos mais velhos, ou seja, existe uma notória desvalorização do discurso dos anciãos por parte dos jovens. Também os pais constatam que estão a fracassar em matéria de educação. Por exemplo, tendo presente os resultados dum estudo realizado em França, no início do século XX, 75% dos franceses abraçavam a profissão do pai. Atualmente, não chega a 20%.
            Nós, que diariamente contactamos com esta realidade, percebemos que a crise da transmissão da fé está ligada a uma “destotalização” da experiência humana. Ou seja, temos uma sociedade que eliminou os códigos globais e, por isso, não existe uma coerência entre a experiência humana de todos, precisamente por não haver um paradigma comum. Cada pessoa, hoje, aparece como fruto de um processo de socialização muito distinto dos demais. Assim ouso afirmar que é completamente errado pensar que pode haver uma evangelização comum a todos que culmine sempre em conversões.
            A crise de que falamos, prende-se ainda com o predomínio da inovação, a vivencia do presente e do instante, que faz perder a referência a uma ascendência e uma linhagem partilhada e ainda à memória do passado. Ora, sabemos que estes são elementos estruturais das construções religiosas e que, sem eles, não pode haver religião.

2. A secularização da cultura
            Assistimos, hoje, a uma autonomização dos diferentes aspetos da vida pessoal e social, ou seja, a religião já não é determinante e passou a ser mais uma “coisa” no meio de tantas. 
            Durante muito tempo na História da Igreja, o Sistema de assimilação da fé adotado foi o Teocrático. Assim, cultura, economia, política, família, afetividade, moral e outras dimensões, estavam absorvidas pela religião. Na verdade, hoje, a transmissão da fé não se quer como resultado dum sistema destes. Pelo contrário, o sistema cristão procura apostar na autonomia de cada dimensão da vida humana, fazendo parte de um mesmo corpo. Será a fé (religião), a dotar de sentido, cada uma das dimensões.
            No entanto, percebemos que a sociedade ocidental de hoje aposta em sistemas liberais onde o religioso é um aspecto mais, com a sua especificidade, mas sem relação com os outros sectores. A religião não influencia nas opções políticas, na conduta moral, na realização da afectividade, ficando reduzida ao âmbito do privado e pessoal, o que leva a uma privatização da fé.
            No meio deste sistema liberal, totalmente secularizado, vamos assistindo a tentativas de imposição de um sistema mais ateu onde a fé está negada. Aceita-se o fenómeno religioso como uma alienação, estruturas de poder ou superstições que não humanizam e que, por isso, têm de se eliminar.
            O processo de socialização das classes juvenis, hoje em dia, acontece à margem da religião e da influência da Igreja. As classes juvenis realizam o processo de incorporação na sociedade e apropriação da cultura sem contacto algum com a religião ou sem que a religião forme parte dos seus conteúdos. Assim, este fenómeno irá desembocar num desaparecimento da religião no âmbito social e cultural. Por isso, a transmissão da fé, nos tempos atuais, não pode contar com as estruturas da sociedade e da cultura; deve, ao invés, convencer-se que terá de trabalhar com meios próprios. 

3. Crise da autoridade do tradicional: uma das causas
            Um aspeto, hoje, de grande importância é a inovação nas sociedades modernas, submetidas a mudanças cada vez mais rápidas e profundas. A par deste fenómeno, assistimos a uma ruptura do “imaginário da continuidade”. Ou seja, nunca como hoje, e já desde os tempos do Iluminismo, há uma insistência na autonomia da razão do indivíduo, com o convite ao sujeito a atrever-se a pensar por si mesmo, fugindo de qualquer sistema de socialização.
            Este panorama põe em questão o carácter normativo inerente ao próprio processo da tradição como transmissão de memória de uma linhagem. Ou seja, o próprio processo de socialização religiosa muda de configuração.
            O Homem de hoje abdica das diferentes autoridades, princípios e instituições rejeitando qualquer tentativa de regular os seus comportamentos. A pertença a uma religião já não resulta da herança de uma tradição mas sim de uma eleição pessoal de uma tradição, no meio de tantas. Chegamos, assim, à mais perfeita desintegração do próprio processo da transmissão de uma tradição.

A FAMÍLIA

            Qual o lugar que ocupa a família nesta crise da transmissão da fé? Ocupa, sem dúvida, um papel fundamental e a ela se deve uma boa parte desta crise. Hoje, nas famílias, convergem vários fatores sociais e culturais que as próprias não dominam, mas nos quais são envolvidas.

1. Desmoronamento da família tradicional
            Papel importante, ocupam, na nossa sociedade, os novos usos e as novas legislações em matéria familiar: legalização do divórcio, despenalização do aborto, reconhecimento social e legal das famílias monoparentais, redução das taxas de natalidade, elevação da idade média do matrimónio, aumento das taxas de divórcio, outro. Em simultâneo, assistimos a mudanças qualitativas na compreensão da família: da família espera-se, antes de mais, que se consagre à satisfação das necessidades emocionais e afetivas vividas no presente, sem que prime a consideração da linhagem e a sua continuidade. Por isso, não se valoriza com tanto destaque a estabilidade e a “filosofia da continuidade”.
            Não obstante a esta mudança, a pessoa humana, nas sociedades ocidentais, não deixou de acreditar que a família continua a ser um dos valores mais importantes, ou seja, continua a ser o grupo social de referência para as pessoas de todas as idades.
            Atualmete, a “família histórica” tem sido substituída pela “família fusional”: trata-se da família dos intercâmbios afetivos, vulneráveis aos desencantos amorosos. Tem sido, ainda, substituída pela família-club: é a família caracterizada pela autonomia concedida aos indivíduos que a compõem e que olha para as vantagens e desvantagens da vida em comum.
            Com este panorama, fica a pergunta: pode a família continuar a ser um órgão de transmissão, a seus filhos, da vida religiosa e da fé?

2. Influência, sobre a transmissão da fé, “das famílias”
            A mãe sempre teve, no que toca à transmissão, um papel preponderante. Ora, também elas se encontram, hoje, secularizadas. Devido aos trabalhos que exercem fora de casa, deixaram de ter tantas possibilidades de ter influência na educação dos filhos. Por outro lado, também as mães passaram a ter uma orientação crítica face à religião institucionalizada.
            Assim, percebemos que os jovens entram na idade madura com uma identidade religiosa muito debilitada porque os pais já não transmitem a fé aos filhos. Embora ainda persista alguma religiosidade por influência dos avós, também isso se encontra ameaçado.
            A Igreja hoje, deve atender a este fenómenos na hora de rever os métodos da evangelização. Todos nós estamos envolvidos neste processo. Somos conscientes que deverá haver uma forte aposta na valorização, formação e acompanhamento das famílias, como Primeira Igreja e primeira educadora das novas gerações, ou seja, da futura Igreja.