Reflexão do 2º dia da Novena à Senhora da Purificação


Estimados padres,
Amigo diácono,
Caros colegas e outros amigos que nos visitam,

No início da nossa oração, cantávamos que a porta da fé está sempre aberta para nós. Por ela entramos na vida e na comunhão com Deus. E mais à frente, dizíamos ainda que, de uma mulher nasceu o Verbo feito Homem; agora, quem acolhe este Verbo, Jesus, encontra a vida eterna. O que é que podemos concluir? Que acolher Jesus, nascido de Maria ou entrar pela porta da fé, são a mesma coisa: ambas as atitudes significam o alcance da vida eterna que é uma vida de comunhão com Deus.

Para percebermos o alcance desta figura da porta escancarada pela qual todos somos convidados a entrar, convido-vos, brevemente a relembrar algumas atitudes a que a Sagrada Escritura nos convida, a partir das portas bíblicas. Por exemplo, a porta convida-nos a:
  • Uma atitude de oração: Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto, fecha a porta e reza em segredo a teu Pai (Mt 6, 6).
  • Uma atitude de prudência: As virgens que estavam prontas entraram com o noivo para a sala das núpcias, e fechou-se a porta. (Mt 25, 10)
  • Uma atitude de esperança: Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, está salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem (Jo 10, 9).

Outros poderiam ser os exemplos. Mas para o nosso propósito chega-nos estes, precisamente para nos ajudar a entender o relato da anunciação. Estas três atitudes: oração, prudência e esperança, assim como outras, encontramo-las em Maria. Vejamos:
  • Às palavras do Anjo, Maria responde com a oração. Confronta a Palavra de Deus, presente ali no Anjo e tenta perceber o que Deus quer para ela; Este é o verdadeiro sentido de uma oração perfeita: o confronto da Palavra de Deus com a nossa vida, numa atitude permanente de fazer a sua vontade.
  • Nesta tentativa de Maria de compreensão dos planos de Deus, Maria revela uma segunda atitude, a da prudência: Como é isso possível? É a mesma prudência das Virgens prudentes: sabem que o seu senhor poderá vir a qualquer momento, e por isso não se fecham à possibilidade de ele chegar. Assim Maria, que embora não compreendendo, não rejeitou a possibilidade daquele ser o momento de receber o seu Senhor.
  • Uma terceira atitude de Maria, presente no texto da anunciação é a da esperança. O seu sim sem limites, resulta de uma esperança fundada na fé, de que o Senhor cumprirá as promessas ali transmitidas pelo Anjo.

É interessante imaginar a imagem que Bernardo de Claraval, numa Homilia de Advento, desenha sobre este momento. Diz, mais ou menos, o seguinte: Depois do fracasso dos nossos primeiros pais o mundo inteiro ficou às escuras sob o domínio da morte. Agora Deus procura entrar de novo no mundo, e bate à porta de Maria. E adianta S. Bernardo que no momento do pedido feito a Maria, o céu e a terra como que suspenderam a respiração. Será que ela vai dizer sim? Será que a sua humildade vai fazer com que negue este projeto? Efetivamente, Maria conseguiu ser humilde e generosa: e responde SIM!

Por esta razão, com toda a legitimidade, é verdade que reconhecemos que Jesus é a porta – Ele próprio o diz -, mas não com menos verdade afirmamos que Maria também é a porta. Nós próprios, muitas vezes a invocamos assim: na ladainha, Porta do Céu: rogai por nós. Ou ainda na Antífona II depois das Completas: Santa Mãe do Redentor, porta do Céu. E qual a razão para Maria se ter tornado porta do Céu? A resposta, encontramo-la na mesma Antífona: Vós, que acolhendo a saudação do Anjo, gerastes, com admiração da natureza, o vosso santo Criador. 

Senhores padres,
Caros irmãos,
Maria é para nós uma porta, também ela sempre aberta, porque Jesus a escolheu como caminho para vir até nós. Agora, continua a ser o caminho de que nós nos devemos servir para ir até Jesus. Para entrar neste caminho, imitemos as atitudes de Maria na anunciação: oração no confronto com a Palavra de Deus, prudência disponível e esperança fundada na fé.

Possamos nós repetir, tal como santo Ambrósio, aquela pequena oração tão simples e tão rica: «Abre-nos, Senhora, as portas do Céu, já que tu tens a chave.».

Seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo.
Dado em Évora, aos 25 dias de Janeiro de 2013

Nelson Rodrigues